Sábado, 17 de Fevereiro de 2007

Entrevista a Almeida Garrett

 

 

Entrevistador: Joaquim Silva

Entrevistado: Almeida Garrett

 

 

Joaquim Silva – Esta semana temos no nosso canal Almeida Garrett que nos vai contar toda a sua história de vida!

 

Joaquim – Olá, bom dia.

Almeida Garrett – Bom dia.

 

Joaquim – Sr.º Almeida Garrett, na realidade, qual é o seu nome completo?

 

Almeida Garrett – Na verdade, o meu nome completo é João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett.

 

Joaquim – Quando e onde nasceu?

 

Almeida Garrett -Nasci a 4 de Fevereiro de 1799, final do século XVIII, no Porto.

 

Joaquim – No ano de 1809 foi para os Açores. Por que razão? Foi a única vez que foi exilado?

 

Almeida Garrett – Fui para os Açores de modo a escapar às invasões francesas. No entanto, não foi a única vez que fui exilado – estive também exilado em Inglaterra e depois em França.

 

Joaquim – Antes dos referidos exílios casou-se, correcto?

 

Almeida Garrett – Sim. Casei-me com Luísa Midosi, a minha primeira mulher.

 

Joaquim – Mas, aquando do exílio em Inglaterra, teve uma experiência que teve grandes repercussões no seu futuro, nomeadamente ao nível das suas obras. Qual foi?

 

Almeida Garrett – Nessa altura, tive a primeira experiência com o movimento romântico.

 

Joaquim – Qual o curso superior que possui?

 

Almeida Garrett – Fiz o curso de Direito, em Coimbra, e foi aí que tive o primeiro contacto com os ideais liberais.

 

Joaquim – Que acontecimentos marcaram o ano de 1827?

 

Almeida Garrett – Nesse ano, fundei os jornais “Português” e “Cronista”.

 

Joaquim – Sabe-se que, entre 1828 e 1831, viveu em Inglaterra e depois em França. Para além disso, que sucedeu nesse período?

 

Almeida Garrett – Durante esse período de tempo, ingressei num batalhão de caçadores e, mais tarde, desembarquei nos Açores, onde estava integrado numa expedição comandada por D. Pedro IV.

 

Joaquim – Você é responsável por alguns acontecimentos importantes que marcaram o ano de 1836. Pode mencioná-los?

 

Almeida Garrett – Pois bem, fui responsável pelo projecto do teatro D. Maria II e pela criação do Conservatório de Arte Dramática.

 

Joaquim – Diga-me, enquanto escritor, qual é o seu dever para com a sociedade portuguesa?

 

         Almeida Garrett – Tenho plena consciência do dever cívico de escritor e, como tal, tenho o persistente propósito de arrancar Portugal à apatia, induzindo-lhe a noção e o sentimento da personalidade colectiva.

 

         Joaquim – E em relação ao liberalismo? Como o define, enquanto adepto das suas ideias?

 

         Almeida Garrett – Creio que possa dizer que é o surgimento de novas ideias, novos gostos e também o surgir de um novo público de origem burguesa e pouco letrado, o que é um factor que condiciona o carácter didáctico de muitos textos românticos.

 

Joaquim – Antes de avançarmos para uma análise mais detalhada de uma das suas obras, diga-me, quais aquelas obras que ficaram marcadas na história dos portugueses para além daquela onde nos iremos centrar?

 

Almeida Garrett – Creio que terão sido “Um Auto de Gil Vicente”, representado em 1838, “O Alfageme de Santarém”, representado em 1842, “O Arco de Sant’Ana”, editado em 1845, “Viagens na Minha Terra”, que destaco especialmente, editado em volume no ano seguinte e, por fim, temos “Folhas Caídas”, editado em 1853.

 

          Joaquim – Relativamente às muitas obras que publicou e referiu, qual aquela que, a seu ver, teve maior impacto nos leitores e que foi mais aclamada?

 

         Almeida Garrett – Não a mencionei, mas sem dúvida alguma que foi “Frei Luís de Sousa”.

        

Joaquim – Como foi referido, o senhor foi o introdutor do romantismo em Portugal. Contudo, tanto quanto sabemos, essa sua obra, “Frei Luís de Sousa”, insere-se num género que você próprio criou, o Drama Romântico, certo?

 

         Almeida Garrett – Exacto. Como referiu e muito bem, a obra em questão insere-se no Drama Romântico, uma vez que apresenta características da Tragédia Clássica e do Romantismo.

 

         Joaquim – Tais como?

 

         Almeida Garrett – Considerando a obra na globalidade, creio que podemos destacar o facto de se encontrar escrita em prosa, enquanto discurso literário, e a adopção de uma linguagem coloquial e mais oralizante. Para além disso, a obra baseia-se numa situação real, o ser humano é alvo de uma atenção analítica – como eu afirmo na “Memória ao Conservatório Real”, «O estudo do homem é o estudo deste século, a sua anatomia e fisiologia moral as ciências mais buscadas pelas nossas capacidades actuais». Por fim, é de referir que os valores patrióticos e religiosos são exaltados, sendo personificados nas personagens de Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena, respectivamente.

 

         Joaquim – Nesta sua obra, que é um texto dramático, ou seja, tem como propósito o de ser representada, denota-se uma experiência pessoal, correcto?

 

         Almeida Garrett – Exacto. Enquanto casado com Luísa Midosi, apaixonei-me por Adelaide Pastor Deville, confesso, de quem tive uma filha ilegítima. Contudo, Adelaide morreu antes que pudéssemos legitimar a situação da nossa filha, que eu tanto estimava. Assim, creio poder dizer que a acção da peça traduz a minha profunda angústia, reflectindo a minha realidade.

 

         Joaquim – Quase a terminar, diga-me, sabe-se que a personagem de Maria morre em palco. O que é que isso evidencia?

 

         Almeida Garrett – A sua morte em palco surge como forma de reforçar a intensidade dramática já existente ao longo de toda a peça e de demonstrar quão cruel a sociedade é ao não aceitar Maria.

 

         Joaquim – Para terminar, o que nos pode revelar mais acerca desta sua obra tão marcante?

 

         Almeida Garrett – Não muito. Não irei revelar a acção da obra senão iria desmotivar o público a ver a peça, que irá ser representada mais uma vez dentro de algum tempo. No entanto, posso dizer que nesta peça está presente uma crítica à sociedade, como eu já referi, e está também bem presente a intensidade dramática, o que inspira sentimentos de terror e de piedade no público.

 

         Joaquim – Muito bem. Obrigado por ter aceite o nosso convite e ter participado nesta entrevista. Creio que agitou muitas consciências com as suas palavras.

 

         Almeida Garrett – Obrigado eu pelo convite. Até um dia.

 

         Joaquim – Até um dia. Por hoje ficamos por aqui. Na próxima semana teremos uma reportagem acerca deste mesmo autor que acabámos de conhecer, reportagem essa que irá aprofundar todos os detalhes da sua vida. Até para a semana.

publicado por Cybertecks às 19:56

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